O sermão há de ter um só assunto e uma só matéria. Por isso Cristo disse que o lavrador do Evangelho não semeara muitos gêneros de sementes, senão uma só: Exíit. quí semínat, semínae sêmen (1). Semeou uma só semente, e não muitas. Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma confusão verde. Quem semeia misturas, mal pode colher trigo. Se uma nau fizesse um bordo para o norte, outro para o sul, outro para leste, outro para oeste, como poderia ser a viagem? Por isso nos púlpitos se trabalha tanto e se navega tão pouco. Um assunto vai para um vento, outro assunto vai para outro vento, que se há de colher senão vento? O Batista convertia muitos em Judéia, mas quantas matérias tomava? Uma só matéria: Parate viam Domini (2) a preparação para o remo de Cristo. Jonas converteu os ninivitas, mas quantos assuntos tomou? Um só assunto: Adhuc quadraginta dies, ei Ninive subvertetur (3): a subversão da cidade. De maneira que Jonas em quarenta dias pregou um só assunto, e nós queremos pregar quarenta assuntos em uma hora? Por isso não pregamos nenhum. O sermão há de ser de uma só cor, há de ter um só objeto, um só assunto, uma só matéria.
Há de tomar o pregador uma só matéria, há de defini-la para que se conheça, há de dividi-la para que se distinga, há de prová-la com a Escritura, há de declará-la com a razão, há de confirmá-la com o exemplo, há de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar, há de responder às dúvidas, há de satisfazer às dificuldades, há de impugnar e refutar com toda a força da eloqüência os argumentos contrários, e depois disto há de colher, há de apertar, há de concluir, há de persuadir, há de acabar. Isto é sermão, isto é pregar, e o que não é isto, é falar de mais alto. Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão de nascer todos da mesma matéria, e continuar e acabar nela. Quereis ver tudo isto com os olhos?
Ora vede. Uma árvore tem raízes, tem troncos, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim, há de ser o sermão: há de ter raízes fortes e sólidas, porque há de ser fundado no Evangelho; há de ter um tronco, porque há de ter um só assunto e tratar uma só matéria. Deste tronco hão de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria, e continuados nela. Estes ramos não hão de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão de ser vestidos e ornados de palavras. Há de ter esta árvore varas, que são a repreensão dos vícios, há de ter flores, que são as sentenças, e por remate de tudo há de ter frutos; que é o fruto o fim a que se há de ordenar o sermão. De maneira que há de haver frutos, há de haver flores, há de haver varas; há de haver folhas, há de haver ramos, mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma só matéria. Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são vérças. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são flores não é sermão, é ramalhete. Serem tudo frutos não pode ser; porque não há frutos sem árvores. Assim que nesta árvore, a que podemos chamar árvore da vida, há de haver o proveitoso do fruto, o formoso das flores, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o estendido dos ramos, mas tudo isto nascido e formado de um só tronco, e esse não levantado no ar, senão fundado nas raízes do Evangelho: Seminare semen.
Embora se trate de apenas um fragmento do Sermão da Sexagésima, observa-se uma perfeita unidade entre os três parágrafos, caracterizando-os como um texto dissertativo constituído das três partes que estruturam essa modalidade de redação: introdução, desenvolvimento e conclusão. Cada parágrafo, por sua vez, apresenta-se como um parágrafo padrão (constituído das mesmas partes), configurando-se, pois, como uma unidade de sentido.
__________________________________________
1. Saiu quem semeia a semear a semente.
2. Preparar o caminho do Senhor.
3. Daqui a quarenta dias Ninive será destruída.
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Principal autor do período Barroco
GREGÓRIO DE MATOS GUERRA (1636-1695)
Poesia Amorosa
A) O amor elevado
Anjo no nome, Angélica na cara!Isso é ser flor, e Anjo juntamente:Ser Angélica flor, e Anjo florente*Em quem, senão em vós, se uniformara?Quem vira uma tal flor, que a não cortara,De verde pé, da rama florescente?A quem um Anjo vira tão luzenteQue por seu Deus o não idolatrara?Se pois como Anjo sois dos meus altares,Fôreis o meu custódio*, e minha guarda,Livrara eu de diabólicos azares.Mas vejo que tão bela, e tão galharda,Posto que* os Anjos nunca dão pesares,Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
Florente: florido.Custódio: defesaPosto que: ainda que.
B) O amor obsceno-satírico
O amor é finalmenteum embaraço de pernas,uma união de barrigas,um breve tremor de artérias.Uma confusão de bocas,uma batalha de veias,um reboliço de ancas,quem diz outra coisa, é besta.
http://educaterra.terra.com.br/literatura/
Poesia Satírica - Epílogos
Que falta nesta cidade?... Verdade
Que mais por sua desonra?... Honra
Falta mais que se lhe proponha?... Vergonha
O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.
Quem a pôs neste socrócio*? ... Negócio.
Quem causa tal perdição? ... Ambição.
E o maior desta loucura? ... Usura.
Notável desaventura
De um povo néscio* e sandeu*,
Que não sabe que o perdeu
Negócio, ambição, usura.
Quem são seus doces objetos?... Pretos.
Tem outros bem mais maciços?... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos.
Dou ao demo os insensatos,
Dou ao demo a gente asnal,
Que estima por cabedal
Pretos, mestiços, mulatos. (...)
E que justiça a resguarda?... Bastarda
É grátis distribuída?... Vendida
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça,
Que anda a justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta. (...)
E nos frades há manqueiras?... Freiras.
Em que se ocupam os serões?... Sermões.
Não se ocupam em disputas?... Putas.
Com palavras dissolutas
Me concluís na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.
O açúcar já se acabou? ... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu? ... Subiu.
Logo já convalesceu? ... Morreu
.À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece,
Cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, subiu e morreu.
A Câmara (1) não acode? ... Não pode.
Pois não tem todo o poder? ... Não quer.
É que o governo a convence? ... Não vence.
Quem haverá que tal pense,
Que uma Câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.
(1) As Câmaras tinham grande poder no Brasil colonial: arrecadavam impostos, resolviam os problemas das comunidades, mantinham a segurança, estabeleciam relações com os governadores, etc.
*Socrócio: palavra criada pelo autor, indicando roubalheira, rapinagem.*Néscio: ignorante.*Sandeu: idiota.
http://educaterra.terra.com.br/literatura/
Poesia Amorosa
A) O amor elevado
Anjo no nome, Angélica na cara!Isso é ser flor, e Anjo juntamente:Ser Angélica flor, e Anjo florente*Em quem, senão em vós, se uniformara?Quem vira uma tal flor, que a não cortara,De verde pé, da rama florescente?A quem um Anjo vira tão luzenteQue por seu Deus o não idolatrara?Se pois como Anjo sois dos meus altares,Fôreis o meu custódio*, e minha guarda,Livrara eu de diabólicos azares.Mas vejo que tão bela, e tão galharda,Posto que* os Anjos nunca dão pesares,Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
Florente: florido.Custódio: defesaPosto que: ainda que.
B) O amor obsceno-satírico
O amor é finalmenteum embaraço de pernas,uma união de barrigas,um breve tremor de artérias.Uma confusão de bocas,uma batalha de veias,um reboliço de ancas,quem diz outra coisa, é besta.
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Poesia Satírica - Epílogos
Que falta nesta cidade?... Verdade
Que mais por sua desonra?... Honra
Falta mais que se lhe proponha?... Vergonha
O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.
Quem a pôs neste socrócio*? ... Negócio.
Quem causa tal perdição? ... Ambição.
E o maior desta loucura? ... Usura.
Notável desaventura
De um povo néscio* e sandeu*,
Que não sabe que o perdeu
Negócio, ambição, usura.
Quem são seus doces objetos?... Pretos.
Tem outros bem mais maciços?... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos.
Dou ao demo os insensatos,
Dou ao demo a gente asnal,
Que estima por cabedal
Pretos, mestiços, mulatos. (...)
E que justiça a resguarda?... Bastarda
É grátis distribuída?... Vendida
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça,
Que anda a justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta. (...)
E nos frades há manqueiras?... Freiras.
Em que se ocupam os serões?... Sermões.
Não se ocupam em disputas?... Putas.
Com palavras dissolutas
Me concluís na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.
O açúcar já se acabou? ... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu? ... Subiu.
Logo já convalesceu? ... Morreu
.À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece,
Cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, subiu e morreu.
A Câmara (1) não acode? ... Não pode.
Pois não tem todo o poder? ... Não quer.
É que o governo a convence? ... Não vence.
Quem haverá que tal pense,
Que uma Câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.
(1) As Câmaras tinham grande poder no Brasil colonial: arrecadavam impostos, resolviam os problemas das comunidades, mantinham a segurança, estabeleciam relações com os governadores, etc.
*Socrócio: palavra criada pelo autor, indicando roubalheira, rapinagem.*Néscio: ignorante.*Sandeu: idiota.
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segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Barroco
Momento sócio-cultural
. A Contra-reforma, movimento da Igreja católica contra o protestantismo, tem grande influência sobre o pensamento barroco, sendo uma das causas da dualidade da época.
. O barroco procurou conciliar o homem e o divino, o sagrado e o profano, o medieval e o renascentista. Daí a profunda angústia do pensamento da época.
. O Domínio Espanhol sobre Portugal (1580-1640) impulsionou a influência do barroco sobre Portugal e Brasil, pois a Espanha foi o primeiro país cultor da estética barroca.
Características literárias
. A característica maior do Barroco é a contradição. Expressa a dualidade de um homem que oscila entre fé e prazer, celestial e terreno.
. A literatura barroca é rebuscada, baseada em uso abusivo de antíteses, figuras de linguagem, inversões sintáticas e exageros, tornando-se, por vezes, obscura.
. Duas tendências dominam o barroco: o cultismo (culto à forma perfeita e ao jogo de palavras) e o conceptismo (jogo de idéias e argumentos).
Autores e Obras
. Bento Teixeira: autor da obra inaugural do barroco brasileiro, Prosopopéia (1601), poema épico com forte influência de Camões.
. Gregório de Matos Guerra: principal nome barroco brasileiro e até hoje objeto de polêmicas. Deixou obra lírica, satírica e religiosa, reunida em livro somente após sua morte.
. Padre Antonio Vieira: maior orador e escritor sacro da língua portuguesa, deixou magnífica obra, em que se destacam os Sermões (1679-1718, 15 volumes), História do Futuro (1718), etc.
. A Contra-reforma, movimento da Igreja católica contra o protestantismo, tem grande influência sobre o pensamento barroco, sendo uma das causas da dualidade da época.
. O barroco procurou conciliar o homem e o divino, o sagrado e o profano, o medieval e o renascentista. Daí a profunda angústia do pensamento da época.
. O Domínio Espanhol sobre Portugal (1580-1640) impulsionou a influência do barroco sobre Portugal e Brasil, pois a Espanha foi o primeiro país cultor da estética barroca.
Características literárias
. A característica maior do Barroco é a contradição. Expressa a dualidade de um homem que oscila entre fé e prazer, celestial e terreno.
. A literatura barroca é rebuscada, baseada em uso abusivo de antíteses, figuras de linguagem, inversões sintáticas e exageros, tornando-se, por vezes, obscura.
. Duas tendências dominam o barroco: o cultismo (culto à forma perfeita e ao jogo de palavras) e o conceptismo (jogo de idéias e argumentos).
Autores e Obras
. Bento Teixeira: autor da obra inaugural do barroco brasileiro, Prosopopéia (1601), poema épico com forte influência de Camões.
. Gregório de Matos Guerra: principal nome barroco brasileiro e até hoje objeto de polêmicas. Deixou obra lírica, satírica e religiosa, reunida em livro somente após sua morte.
. Padre Antonio Vieira: maior orador e escritor sacro da língua portuguesa, deixou magnífica obra, em que se destacam os Sermões (1679-1718, 15 volumes), História do Futuro (1718), etc.
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