História
A Sociedade Parthenon Litterario foi criada em 18 de junho de 1868, num período de efervescência social e política, com a Guerra do Paraguai em andamento, as idéias republicanas em expansão e uma forte retomada do movimento abolicionista.
Sediada em Porto Alegre, contava com colaboradores de toda província, promovendo um intercâmbio cultural que impulsionou a intelectualidade riograndense. Sua criação foi centrada em duas figuras: o médico e escritor José Antônio do Vale Caldre e Fião, presidente honorário, e o jovem Apolinário José Gomes Porto-Alegre. Caldre e Fião além do apoio à iniciativa, emprestou seu prestígio pessoal, pois era autor conhecido. Já Apolinário foi fundamental com sua atuação e postura.
Seu surgimento permitiu o intercâmbio de informações, textos e idéias entre os autores membros, promovendo a circulação de matérias literárias em diferentes jornais que percorreram os mais distantes recantos do Rio Grande do Sul. Sua atuação não se resumiu apenas à divulgação de literária, mas também expandir a cultura dos gaúchos, oferecendo cursos noturnos para adultos (mostrando sua preocupação com a formação intelectual da população) e criando uma biblioteca com importantes obras de Filosofia, História e Literatura e um museu com seções de Mineralogia, Arqueologia, Numismática e Zoologia. As aulas noturnas foram uma das atividades mais duradouras, permanecendo até 1884 quando, devido à dificuldades financeiras e falta de um local para abrigar as aulas, estas foram suspensas.
A Sociedade participava de campanhas abolicionistas, angariando fundos para libertação de escravos e propagava os ideais republicanos. Promovia também debates com temas diversos como a Revolução Farroupilha, casamento , pena de morte e feminismo.
Ao longo de sua existência funcionou em diversos locais, sem nunca ter tido sede própria. Em novembro de 1873, numa cerimônia em que estiveram o presidente da província, João Pedro Carvalho de Morais, e o bispo de Porto Alegre houve uma primeira tentativa de fundação de um espaço próprio, em uma região, na época, distante do centro da cidade, que deu o nome a um dos atuais bairros de Porto Alegre, o Partenon. A sede seria onde hoje é a Igreja Santo Antônio. Outra tentativa deu-se em 10 de janeiro de 1885, com presença da Princesa Isabel e do Conde D'Eu, lançou-se a pedra fundamental de um edíficio que seria localizado na rua Riachuelo.
O Partenon Literário precedeu 30 anos a Academia Brasileira de Letras, publicando diversas obras literárias, bem como a tradicional Revista Literária, ora em formato de livro, seu legado mais forte. A Revista circulou durante dez anos e continha críticas literárias, biografias, comentários, editoriais e estudos sobre a história e cultura gaúchas. Discursos proferidos na Sociedade eram depois transcritos para a revista, além de contos, narrativas, peças teatrais e poesias. Os textos mais longos eram divididos em diversas partes e publicados ao longo de diversos números.
Entre os membros de destaque da sociedade pode-se citar: Apolinário José Gomes Porto-Alegre, seus irmãos Apeles e Aquiles, Afonso Luís Marques, Alberto Coelho da Cunha (Vítor Valpírio), Antônio Vale Caldre Fião, Argemiro Galvão, Augusto Rodrigues Tota, Aurélio Veríssimo de Bittencourt, Bernardo Taveira Júnior, Bibiano Francisco de Almeida, Carlos von Koseritz, Francisco Antunes Ferreira da Luz, Francisco Isidoro de Sá Brito, Hilário Ribeiro, Inácio de Vasconcelos Ferreira, José Bernardino dos Santos, João Damasceno Vieira Fernandes, José Carlos de Sousa Lobo, Lobo da Costa, Múcio Scevola Lopes Teixeira, dentre inúmeros outros. Entre as mulheres se destacaram Luciana de Abreu,a primeira mulher a subir na tribuna para falar em público, Luísa de Azambuja, Amália dos Passos Figueroa e Revocata Heloísa de Melo.
A sociedade foi extinta por volta de 1925, mediante a doação de terreno que tinha obtido para a construção de sua sede, pois de fato já deixara de existir desde 1885 quando paralisou os trabalhos associativos.
Refundação
Depois de 112 anos, reiniciou as suas atividades em 1997 a partir de um grupo de intelectuais interessados em prosseguir com os postulados dos próceres de 1868. Juridicamente, no entanto, apesar de dizer-se que a Sociedade reiniciou as suas atividades em 1997, o que houve, na verdade, foi a re-fundação da extinta entidade, ora dita em sua fase Século XXI.
Assim como os sócios antigos, os atuais não estão presos ou subordinados a qualquer tipo fechado de literatura ou expressão artística. Entre eles, incluem-se juristas, poetas, prosadores, artistas plásticos, jornalistas, músicos e atores. Trata-se de uma sociedade ecumênica por excelência.
Atividades literárias
A entidade conta agora com mais seis publicações, além da tradicional Revista do Partenon Literário (na verdade livro), ora em seu número 4. E são elas:
Coleção Autores Reunidos,
Coleção Prata da Casa,
Coleção Nossas Letras,
Coleção Letras Jurídicas,
Coleção Palestras do Partenon,
Coleção Arquivo e História.
A antologia literária Genesis se constituiu no primeiro volume da Coleção Autores Reunidos, quase ou praticamente esgotada no seu lançamento, em novembro de 2003, e já se encontra em fase final o volume II, com algumas vagas e ainda sem título definido.
Existem inúmeros autores por publicar e existem escritores consagrados que se dispõem, sem quaisquer preconceitos, a escrever e publicar junto com autores que, ainda no ensino fundamental ou médio, se envolvem com os dons da literatura. De resto, como foi o caso do próprio Múcio Teixeira que ingressou no Parthenon Literário com quinze anos, por sinal, dentre inúmeros outros integrantes, naquela ocasião, e agora na atualidade, como é o objeto de recente publicação, “A Mocidade do Parthenon Litterário”, de Benedito Melgarejo Saldanha, que se tornou sócio após o lançamento.
No ano de 2003 deu-se a comemoração dos 135 anos com uma Exposição Lítero-histórico-fotográfica na Câmara Municipal de Porto Alegre. Além de exemplares raros, a exposição contou com fac-símiles das capas dos autores contemporâneos integrantes da Sociedade Partenon Literário.
A mostra tem por objetivo divulgar ao público em geral a trajetória da entidade que se dedica à literatura e à arte, constituindo-se em uma das Sociedades mais importantes e representativas no cenário da cultura nacional.
Atualmente reúne escritores, poetas, atores e músicos, difundindo as mais variadas formas de cultura.
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domingo, 4 de outubro de 2009
domingo, 6 de setembro de 2009
Sarças de Fogo, de Olavo Bilac
Em Sarças de Fogo, de Olavo Bilac, permanece o lirismo, a que se acrescenta agora o sensualismo. São poemas eróticos, centrados na beleza física da mulher e no amor carnal, reduzido a um jogo bem arranjado de palavras, buscando mais o efeito que a genuína sensualidade. É um erotismo declamatório, que é o caso dos poemas "Tentação de Xenócrates", "Satânia". "O Julgamento de Frinéia". "Alvorada do Amor" e outras.
Surge nesta obra um autor sátiro cujos poemas eróticos só se consegue ler achando graça, o que contrasta com o espírito original. Mas, mesmo sabendo que é um erotismo que se reduz ao puro jogo bem arranjado de palavras, nota-se a presença de um veemente temperamento romântico, controlado a custo pela disciplina formal aprendida. Da multiplicidade de vozes do poeta, a mais esfuziante talvez seja a voz erótico-amorosa, fortíssima nos poemas desta obra.
O primeiro poema dessa obra, intitulado "O julgamento de Frinéia", narra a história de uma cortesã grega que foi levada ao Areópago porque estaria corrompendo a moral das famílias helênicas. O acusador, Eutias, exige a condenação de Frinéia, valendo-se de um argumento moral. Passada a acusação, o povo quer Frinéia condenada. Os juízes querem Frinéia condenada. É a vez da defesa. Fala o advogado, Hipérides, cujo timbre de voz se confunde com o sabor da liberdade. Ainda assim, os espectadores permanecem irresignados. Frinéia capitulará. Desse modo, Hipérides apela para o profano. Arranca a roupa de Frinéia, deixando-a nua.
Veja outros dois poemas contidos na obra:
NEL MEZZO DEL CAMIN
Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...
E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.
Hoje, segues de novo...Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.
E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.
O título, "No meio do caminho", alude a um verso de Dante Alighieri: “Nel mezzo Del camin de nostra vida / mi ritrovai numa selva oscura”, que fala dos trinta e cinco anos do poeta italiano, da metade do caminho da vida.
SATÂNIA (fragmento)
Nua, de pé, solto o cabelo às costas,
Sorri. Na alcova perfumada e quente,
Pela janela, como um rio enorme
Profusamente a luz do meio-dia
Entra e se espalha, palpitante e viva.
(...)
Como uma vaga preguiçosa e lenta,
Vem lhe beijar a pequenina ponta
Do pequenino pé macio e branco.
Sobe...cinge-lhe a perna longamente;
Sobe...- e que volta sensual descreve
Para abranger todo o quadril” – prossegue.
Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura,
Morde-lhe os bicos túmidos dos seios,
Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo
Da axila, acende-lhe o coral da boca.
(...)
E aos mornos beijos, às carícias ternas
Da luz, cerrando levemente os cílios
Satânia os lábios úmidos encurva,
E da boca na púrpura sangrenta
Abre um curto sorriso de volúpia.
(...)
Em termos estruturais, este poema foge um pouco ao padrão parnasiano. Apesar de ser composto apenas por versos decassílabos, o que revela alguma preocupação formal, não há nele uma preocupação com a rima nem com o tamanho das estrofes.
Além disso, em termos temáticos, tem-se aí também algum resquício de Romantismo, principalmente se for observado o modo idealizado como é descrito esta figura feminina. Por outro lado, porém, não há nesta descrição a participação direta de um “eu” romântico, que sofre ao perceber a beleza desta mulher. A descrição que é feita traz grande dose de objetividade, de distanciamento, traços típicos do Parnasianismo, além de conter um alto grau de sensualidade, elemento bastante presente nesta obra de Olavo Bilac, Sarças de Fogo.
Um dado importante a considerar é o modo como é feita a descrição desta figura feminina. O truque utilizado pelo poeta foi o de colocar ante esta mulher a luz do sol, que é o ponto de vista através do qual ela vai ser apresentada. Esta luz, que entra pela janela do quarto e se desenrola pelo chão, pelos tapetes, vai iluminar primeiramente os pés de Satânia e, a partir daí, vai fazer uma sensual viagem pelo corpo desta mulher, descrevendo-o à medida que ele vai sendo iluminado pelo sol. Desta forma, a descrição segue um caminho pouco usual: a mulher é descrita de baixo para cima, dos pés à cabeça.
Outro simbolismo presente na luz do sol é ser ele uma figura distante, não é um “eu” romântico, não é um indivíduo colocado frente a esta mulher, mas tem reações humanas. A luz do sol treme, arfa, fica confusa diante de tanta beleza de Satânia. Pode-se, então, dizer que a luz do sol simboliza qualquer observador que pudesse ser colocado nesta cena, o que reforça o poder de sedução da personagem.
O fragmento final apresentado mostra o outro lado, o que faz Satânia ao sentir-se observada. Ao perceber a insegurança que sua beleza causa na luz do sol (nos que a observam), ela simplesmente sorri, ciente de seu poder de sedução e do controle que tem sobre a situação.
Endereço: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/s/sarcas_de_fogo, em 02/09/2009.
Surge nesta obra um autor sátiro cujos poemas eróticos só se consegue ler achando graça, o que contrasta com o espírito original. Mas, mesmo sabendo que é um erotismo que se reduz ao puro jogo bem arranjado de palavras, nota-se a presença de um veemente temperamento romântico, controlado a custo pela disciplina formal aprendida. Da multiplicidade de vozes do poeta, a mais esfuziante talvez seja a voz erótico-amorosa, fortíssima nos poemas desta obra.
O primeiro poema dessa obra, intitulado "O julgamento de Frinéia", narra a história de uma cortesã grega que foi levada ao Areópago porque estaria corrompendo a moral das famílias helênicas. O acusador, Eutias, exige a condenação de Frinéia, valendo-se de um argumento moral. Passada a acusação, o povo quer Frinéia condenada. Os juízes querem Frinéia condenada. É a vez da defesa. Fala o advogado, Hipérides, cujo timbre de voz se confunde com o sabor da liberdade. Ainda assim, os espectadores permanecem irresignados. Frinéia capitulará. Desse modo, Hipérides apela para o profano. Arranca a roupa de Frinéia, deixando-a nua.
Veja outros dois poemas contidos na obra:
NEL MEZZO DEL CAMIN
Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...
E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.
Hoje, segues de novo...Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.
E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.
O título, "No meio do caminho", alude a um verso de Dante Alighieri: “Nel mezzo Del camin de nostra vida / mi ritrovai numa selva oscura”, que fala dos trinta e cinco anos do poeta italiano, da metade do caminho da vida.
SATÂNIA (fragmento)
Nua, de pé, solto o cabelo às costas,
Sorri. Na alcova perfumada e quente,
Pela janela, como um rio enorme
Profusamente a luz do meio-dia
Entra e se espalha, palpitante e viva.
(...)
Como uma vaga preguiçosa e lenta,
Vem lhe beijar a pequenina ponta
Do pequenino pé macio e branco.
Sobe...cinge-lhe a perna longamente;
Sobe...- e que volta sensual descreve
Para abranger todo o quadril” – prossegue.
Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura,
Morde-lhe os bicos túmidos dos seios,
Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo
Da axila, acende-lhe o coral da boca.
(...)
E aos mornos beijos, às carícias ternas
Da luz, cerrando levemente os cílios
Satânia os lábios úmidos encurva,
E da boca na púrpura sangrenta
Abre um curto sorriso de volúpia.
(...)
Em termos estruturais, este poema foge um pouco ao padrão parnasiano. Apesar de ser composto apenas por versos decassílabos, o que revela alguma preocupação formal, não há nele uma preocupação com a rima nem com o tamanho das estrofes.
Além disso, em termos temáticos, tem-se aí também algum resquício de Romantismo, principalmente se for observado o modo idealizado como é descrito esta figura feminina. Por outro lado, porém, não há nesta descrição a participação direta de um “eu” romântico, que sofre ao perceber a beleza desta mulher. A descrição que é feita traz grande dose de objetividade, de distanciamento, traços típicos do Parnasianismo, além de conter um alto grau de sensualidade, elemento bastante presente nesta obra de Olavo Bilac, Sarças de Fogo.
Um dado importante a considerar é o modo como é feita a descrição desta figura feminina. O truque utilizado pelo poeta foi o de colocar ante esta mulher a luz do sol, que é o ponto de vista através do qual ela vai ser apresentada. Esta luz, que entra pela janela do quarto e se desenrola pelo chão, pelos tapetes, vai iluminar primeiramente os pés de Satânia e, a partir daí, vai fazer uma sensual viagem pelo corpo desta mulher, descrevendo-o à medida que ele vai sendo iluminado pelo sol. Desta forma, a descrição segue um caminho pouco usual: a mulher é descrita de baixo para cima, dos pés à cabeça.
Outro simbolismo presente na luz do sol é ser ele uma figura distante, não é um “eu” romântico, não é um indivíduo colocado frente a esta mulher, mas tem reações humanas. A luz do sol treme, arfa, fica confusa diante de tanta beleza de Satânia. Pode-se, então, dizer que a luz do sol simboliza qualquer observador que pudesse ser colocado nesta cena, o que reforça o poder de sedução da personagem.
O fragmento final apresentado mostra o outro lado, o que faz Satânia ao sentir-se observada. Ao perceber a insegurança que sua beleza causa na luz do sol (nos que a observam), ela simplesmente sorri, ciente de seu poder de sedução e do controle que tem sobre a situação.
Endereço: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/s/sarcas_de_fogo, em 02/09/2009.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
A Tríade Parnasiana

Olavo Bilac (1865-1918)
A exemplo de quase todos os parnasianos, escreveu poesias com grande habilidade técnica sobre temas greco-romanos. Fez numerosas descrições da natureza, ainda dentro do mito da objetividade absoluta, porém os seus melhores textos estão permeados por conotações subjetivas, indicando uma herança romântica.
Satânia
Nua, de pé, solto o cabelo às costas,
Sorri. Na alcova perfumada e quente,
Pela janela, como um rio enorme
Profusamente a luz do meio-dia
Entra e se espalha, palpitante e viva. (...)
Como uma vaga preguiçosa e lenta
Vem lhe beijar a pequenina ponta
Do pequenino pé macio e branco
Sobe... Cinge-lhe a perna longamente;
Sobe... – e que volta sensual descreve
Para abranger todo o quadril! – prossegue,
Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura,
Morde-lhe os bicos túmidos dos seios,
Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo
Da axila, acende-lhe o coral da boca,
E antes de se ir perder na escura noite,
Na densa noite dos cabelos negros,
Pára confusa, a palpitar, diante
Da luz mais bela dos seus grandes olhos. (Sarças de fogo)
In extremis
Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! de sol assim!
Tu, desgrenhada e fria,
Fria! postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados...
E um dia assim! de um sol assim! E assim a esfera
Toda azul, no esplendor do fim da primavera!
Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!
Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento
Despencando os rosais, sacudindo o arvoredo...
E, aqui dentro, o silêncio... E este espanto! e este medo!
Nós dois... e, entre nós dois, implacável e forte,
A arredar-me de ti, cada vez mais, a morte...
Eu, com o frio a crescer no coração, - tão cheio
De ti, até no horror do derradeiro anseio!
Tu, vendo retorcer-se amarguradamente,
A boca que beijava a tua boca ardente,
A boca que foi tua!
E eu morrendo! e eu morrendo
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delícia da vida! a delícia da vida! (Alma inquieta)
Via-láctea
Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Transloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.” (Via-láctea)
Alberto de Oliveira (1857-1937)
Foi de todos os parnasianos o que mais permaneceu atado aos rigorosos padrões do movimento. Manipulava os procedimentos técnicos de sua escola com precisão, mas essa técnica ressalta ainda mais a pobreza temática, a frieza e a insipidez de uma poesia ilegível.
Vaso grego
Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir a um novo deus servia.
Era o poeta de Teos que a suspendia
Então, e, ora repleta ora esvazada,
A taça amiga dos dedos seus tinia,
Toda de roxas pétalas colmada.
Depois... Mas o lavor da taça admira,
Toca-a, e de ouvido, aproximando-a, às bordas
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,
Ignota voz, qual se da antiga lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fosse. (Sonetos e poemas)
A exemplo de quase todos os parnasianos, escreveu poesias com grande habilidade técnica sobre temas greco-romanos. Fez numerosas descrições da natureza, ainda dentro do mito da objetividade absoluta, porém os seus melhores textos estão permeados por conotações subjetivas, indicando uma herança romântica.
Satânia
Nua, de pé, solto o cabelo às costas,
Sorri. Na alcova perfumada e quente,
Pela janela, como um rio enorme
Profusamente a luz do meio-dia
Entra e se espalha, palpitante e viva. (...)
Como uma vaga preguiçosa e lenta
Vem lhe beijar a pequenina ponta
Do pequenino pé macio e branco
Sobe... Cinge-lhe a perna longamente;
Sobe... – e que volta sensual descreve
Para abranger todo o quadril! – prossegue,
Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura,
Morde-lhe os bicos túmidos dos seios,
Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo
Da axila, acende-lhe o coral da boca,
E antes de se ir perder na escura noite,
Na densa noite dos cabelos negros,
Pára confusa, a palpitar, diante
Da luz mais bela dos seus grandes olhos. (Sarças de fogo)
In extremis
Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! de sol assim!
Tu, desgrenhada e fria,
Fria! postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados...
E um dia assim! de um sol assim! E assim a esfera
Toda azul, no esplendor do fim da primavera!
Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!
Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento
Despencando os rosais, sacudindo o arvoredo...
E, aqui dentro, o silêncio... E este espanto! e este medo!
Nós dois... e, entre nós dois, implacável e forte,
A arredar-me de ti, cada vez mais, a morte...
Eu, com o frio a crescer no coração, - tão cheio
De ti, até no horror do derradeiro anseio!
Tu, vendo retorcer-se amarguradamente,
A boca que beijava a tua boca ardente,
A boca que foi tua!
E eu morrendo! e eu morrendo
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delícia da vida! a delícia da vida! (Alma inquieta)
Via-láctea
Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Transloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.” (Via-láctea)
Alberto de Oliveira (1857-1937)
Foi de todos os parnasianos o que mais permaneceu atado aos rigorosos padrões do movimento. Manipulava os procedimentos técnicos de sua escola com precisão, mas essa técnica ressalta ainda mais a pobreza temática, a frieza e a insipidez de uma poesia ilegível.
Vaso grego
Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir a um novo deus servia.
Era o poeta de Teos que a suspendia
Então, e, ora repleta ora esvazada,
A taça amiga dos dedos seus tinia,
Toda de roxas pétalas colmada.
Depois... Mas o lavor da taça admira,
Toca-a, e de ouvido, aproximando-a, às bordas
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,
Ignota voz, qual se da antiga lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fosse. (Sonetos e poemas)
O ninho
O musgo mais sedoso, a úsnea mais leve
Trouxe de longe o alegre passarinho,
E um dia inteiro ao sol paciente esteve
Com o destro bico a arquitetar o ninho.
De paina os vagos flocos cor de neve
Colhe, e por dentro o alfombra com carinho;
E armado, pronto, enfim, suspenso, em breve,
Ei-lo balouça à beira do caminho.
E a ave sobre ele as asas multicores
Estende, e sonha. Sonha que o áureo pólen
E o néctar suga às mais brilhantes flores;
Sonha... Porém de súbito a violento
Abalo acorda. Em torno as folhas bolem...
É o vento! E o ninho lhe arrebata o vento. (Terra natal)
O musgo mais sedoso, a úsnea mais leve
Trouxe de longe o alegre passarinho,
E um dia inteiro ao sol paciente esteve
Com o destro bico a arquitetar o ninho.
De paina os vagos flocos cor de neve
Colhe, e por dentro o alfombra com carinho;
E armado, pronto, enfim, suspenso, em breve,
Ei-lo balouça à beira do caminho.
E a ave sobre ele as asas multicores
Estende, e sonha. Sonha que o áureo pólen
E o néctar suga às mais brilhantes flores;
Sonha... Porém de súbito a violento
Abalo acorda. Em torno as folhas bolem...
É o vento! E o ninho lhe arrebata o vento. (Terra natal)
Fantástica
Erguido em negro mármor luzidio,
Portas fechadas, num mistério enorme,
Numa terra de reis, mudo e sombrio,
Sono de lendas um palácio dorme. (...)
E ainda ornada de gemas e vestida
De tiros de matiz de ardentes cores,
Uma bela princesa está sem vida
Sobre um toro fantástico de flores.
Traz o colo estrelado de diamantes,
Colo mais claro do que a espuma jônia,
E rolam-lhe os cabelos abundantes
Sobre peles nevadas de Issedônia.
Entre o fio esplendor dos artefatos,
Em seu régio vestíbulo de assombros,
Há uma guarda de anões estupefatos,
Com trombetas de ébano nos ombros.
E o silêncio por tudo! nem de um passo
Dão sinal aos extensos corredores;
Só a lua, alta noite, um raio baço
Põe da morta no tálamo de flores. (Meridional)
Raimundo Correia (1959-1911)
A exemplo dos demais componentes da tríade, foi um consumado artesão do verso, dominando com perfeição as técnicas de montagem e construção do poema. Alguns críticos valorizam nele o sentido plástico de suas descrições da natureza. O gelo descritivista da escola seria quebrado por uma emoção genuína – fina melancolia – que humanizava a paisagem.
Anoitecer
Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol... Aves em bandos destacados,
Por céus de oiro e de púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...
Delineiam-se, além, da serrania
Os vértices da chama aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia...
Um mundo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua...
A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece. (Sinfonias)
As pombas ...
Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sangüínea e fresca a madrugada...
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...
Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais... (Sinfonias)
Erguido em negro mármor luzidio,
Portas fechadas, num mistério enorme,
Numa terra de reis, mudo e sombrio,
Sono de lendas um palácio dorme. (...)
E ainda ornada de gemas e vestida
De tiros de matiz de ardentes cores,
Uma bela princesa está sem vida
Sobre um toro fantástico de flores.
Traz o colo estrelado de diamantes,
Colo mais claro do que a espuma jônia,
E rolam-lhe os cabelos abundantes
Sobre peles nevadas de Issedônia.
Entre o fio esplendor dos artefatos,
Em seu régio vestíbulo de assombros,
Há uma guarda de anões estupefatos,
Com trombetas de ébano nos ombros.
E o silêncio por tudo! nem de um passo
Dão sinal aos extensos corredores;
Só a lua, alta noite, um raio baço
Põe da morta no tálamo de flores. (Meridional)
Raimundo Correia (1959-1911)
A exemplo dos demais componentes da tríade, foi um consumado artesão do verso, dominando com perfeição as técnicas de montagem e construção do poema. Alguns críticos valorizam nele o sentido plástico de suas descrições da natureza. O gelo descritivista da escola seria quebrado por uma emoção genuína – fina melancolia – que humanizava a paisagem.
Anoitecer
Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol... Aves em bandos destacados,
Por céus de oiro e de púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...
Delineiam-se, além, da serrania
Os vértices da chama aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia...
Um mundo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua...
A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece. (Sinfonias)
As pombas ...
Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sangüínea e fresca a madrugada...
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...
Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais... (Sinfonias)
Mal secreto
Se em muita fronte que parece calma,
Se em muito olhar que límpido parece;
Se pudesse notar, ler se pudesse,
Tudo o que n’alma existe e vive n’alma!
Entre essa paz fictícia que se espalma
No rosto, a inveja,, raro transparece;
Ela que à glória alheia enraivece,
E que às alheias lágrimas se acalma.
Alma, vítima dessa enfermidade!
Mal sabes que à dos outros sendo adversa,
Tu és adversa à própria f’licidade!
A inveja os risos todos dispersa:
Menos ódio mereces que piedade,
Porque és mais insensata que perversa. (Dispersos)
Se em muita fronte que parece calma,
Se em muito olhar que límpido parece;
Se pudesse notar, ler se pudesse,
Tudo o que n’alma existe e vive n’alma!
Entre essa paz fictícia que se espalma
No rosto, a inveja,, raro transparece;
Ela que à glória alheia enraivece,
E que às alheias lágrimas se acalma.
Alma, vítima dessa enfermidade!
Mal sabes que à dos outros sendo adversa,
Tu és adversa à própria f’licidade!
A inveja os risos todos dispersa:
Menos ódio mereces que piedade,
Porque és mais insensata que perversa. (Dispersos)
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Parnasianismo
Momento sócio-cultural
. O Segundo Reinado está em crise: a Guerra do Paraguai (que custou muitas vidas e dinheiro ao país) e a cada vez mais intensa campanha abolicionista desgastam o governo de D. Pedro II, que perde continuamente o apoio dos grandes proprietários rurais.
. O eixo econômico e de poder desloca-se para o Sul, devido à decadência da economia e à expansão da lavoura de café.
.Os meios intelectualizados do país sofrem influência das teorias científicas, como o positivismo, o evolucionismo e o determinismo.
Características literárias
. O parnasianismo é a expressão do realismo no plano da poesia, com uma produção objetiva, direta que nomeia os objetos e seres sem exageros sentimentais. Assim, muitas das características realistas são aplicadas ao Parnasianismo.
. Vale ressaltar que além da França, o Brasil foi o único país onde se manifestou o Parnasianismo.
Autores e Obras
. Alberto de Oliveira: iniciou sua produção poética como romântico, mas identificou-se com o Parnasianismo, passando a seguir o ideal “arte pela arte” e a enquadrar-se na rigidez métrica que a escola literária propunha. Sua obra envolve, entre outros livros: Canções Românticas (1878), Meridionais (1884), Sonetos e Poemas (1885), Versos e Rimas (1895).
. Raimundo Correia: são suas obras Primeiros Sonhos (1879), Versos e Versões (1887), Aleluias (1891), Poesias (1898) e Lucindo filho (1898).
. Olavo Bilac: foi hábil no manejo da métrica e dos versos, construindo poemas de rara perfeição formal, porém “superficiais como visão de homem”. Escreveu poesia (Poesias – 1888, Poesias Infantis – 1904, Tarde – 1919) e prosa (Crônicas e Novelas – 1894, Ironia e Piedade – 1916, A Defesa Nacional – 1917, Bocage – 1917), além, de livros didáticos.
. O Segundo Reinado está em crise: a Guerra do Paraguai (que custou muitas vidas e dinheiro ao país) e a cada vez mais intensa campanha abolicionista desgastam o governo de D. Pedro II, que perde continuamente o apoio dos grandes proprietários rurais.
. O eixo econômico e de poder desloca-se para o Sul, devido à decadência da economia e à expansão da lavoura de café.
.Os meios intelectualizados do país sofrem influência das teorias científicas, como o positivismo, o evolucionismo e o determinismo.
Características literárias
. O parnasianismo é a expressão do realismo no plano da poesia, com uma produção objetiva, direta que nomeia os objetos e seres sem exageros sentimentais. Assim, muitas das características realistas são aplicadas ao Parnasianismo.
. Vale ressaltar que além da França, o Brasil foi o único país onde se manifestou o Parnasianismo.
Autores e Obras
. Alberto de Oliveira: iniciou sua produção poética como romântico, mas identificou-se com o Parnasianismo, passando a seguir o ideal “arte pela arte” e a enquadrar-se na rigidez métrica que a escola literária propunha. Sua obra envolve, entre outros livros: Canções Românticas (1878), Meridionais (1884), Sonetos e Poemas (1885), Versos e Rimas (1895).
. Raimundo Correia: são suas obras Primeiros Sonhos (1879), Versos e Versões (1887), Aleluias (1891), Poesias (1898) e Lucindo filho (1898).
. Olavo Bilac: foi hábil no manejo da métrica e dos versos, construindo poemas de rara perfeição formal, porém “superficiais como visão de homem”. Escreveu poesia (Poesias – 1888, Poesias Infantis – 1904, Tarde – 1919) e prosa (Crônicas e Novelas – 1894, Ironia e Piedade – 1916, A Defesa Nacional – 1917, Bocage – 1917), além, de livros didáticos.
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