sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Trovadorismo Português II
Para conhecer as origens da lírica trovadoresca, devemos recordar que, a partir do século 11, e durante todo o século 12, a região da Provença, no sul da França, produziu trovadores e jograis que acabaram se espalhando por vários países da Europa. A influência da poesia provençal chega, inclusive, aos nossos dias. Esses provençais se misturariam aos jograis e menestréis galego-portugueses, dando origem às cantigas que veremos a seguir.
É também da Provença que vem o substantivo "trovador", pois lá o poeta era chamado "troubadour" (enquanto que, no norte da França, recebia o nome de "trouvère"). Nos dois casos, o radical da palavra é o mesmo, referindo-se a "trouver", ou seja, "achar". Os poetas eram aqueles que "achavam" os versos, adequando-os às melodias e formando os cantares ou cantigas.
Para fins didáticos, divide-se a lírica trovadoresca em:
1. Cantigas de amor: o trovador confessa, de maneira dolorosa, a sua angústia, nascida do amor que não encontra receptividade. O "eu lírico" desses poemas se revela, às vezes, na forma de um apelo repetitivo, no qual não há erotismo, mas amor transcendente, idealizado. Como exemplo, vejamos esta cantiga de Pero Garcia Burgalês:
Ai eu coitad! E por que vi
a dona que por meu mal vi!
Ca Deus lo sabe, poila vi,
nunca já mais prazer ar vi;
ca de quantas donas eu vi,
tam bõa dona nunca vi.
Tam comprida de todo bem,
per boa fé, esto sei bem,
se Nostro Senhor me dê bem
dela! Que eu quero gram bem,
per boa fé, nom por meu bem!
Ca pero que lh’eu quero bem,
non sabe ca lhe quero bem.
(...).
2. Cantigas de amigo: o trovador apresenta o outro lado da relação amorosa, isto é, assume um novo "eu lírico": o da mulher que, humilde e ingênua, canta, por exemplo, o desgosto de amar e, depois, ser abandonada; ou o da mulher que se apaixonou e fala à natureza, à si mesma ou a outrem sobre sua tristeza, seu ideal amoroso ou, ainda, sobre os impedimentos de ver seu amado. No exemplo a seguir, do trovador Julião Bolseiro, o diálogo se estabelece entre a mulher apaixonada e sua filha, que impede a mãe de ver seu amado:
(...)
Pois eu non ei meu amigo,
non ei ren do que desejo,
mais, pois que mi por vós v~eo
Mia filha, que o non vejo,
no ajade-la mia graça
e dê-vos Deus, ai mia filha,
filha que vos assi faça,
filha que vos assi faça.
Por vós perdi meu amigo,
por que gran coita padesco,
e, pois que mi-o vós tolhestes
e melhor ca vós paresco
no ajade-la mia graça
e dê-vos Deus, ai mia filha,
filha que vos assi faça,
filha que vos assi faça.
Como salienta Massaud Moisés, analisando essa dualidade amorosa do trovador, "é digna de nota essa ambiguidade, ou essa capacidade de projetar-se na interlocutora do episódio e exprimir-lhe o sentimento: extremamente original como psicologia literária ou das relações humanas, não existia antes do trovadorismo, e nem jamais se repetiu depois".
3. Cantigas de escárnio e de maldizer: são poemas satíricos. Nas de escárnio, ressaltam-se a ironia e o sarcasmo. Já as de maldizer são agressivas, abertamente eróticas, a sátira é expressa de forma direta, sem meias palavras, chegando a usar termos chulos. Escritas, às vezes, pelos mesmos autores das cantigas de amor e de amigo, revelam um terceiro "eu lírico", cuja licenciosidade se aproxima da vida das camadas sociais mais populares. Como exemplo, vejamos esta cantiga de maldizer de Afonso Eanes de Coton:
Marinha, o teu folgar
tenho eu por desacertado,
e ando maravilhado
de te não ver rebentar;
pois tapo com esta minha
boca, a tua boca, Marinha;
e com este nariz meu,
tapo eu, Marinha, o teu;
com as mãos tapo as orelhas,
os olhos e as sobrancelhas,
tapo-te ao primeiro sono;
com a minha piça o teu cono;
e como o não faz nenhum,
com os colhões te tapo o cu.
E não rebentas, Marinha?
Não podemos esquecer que todas essas cantigas eram musicadas. Os trovadores as cantavam, acompanhados de um ou vários instrumentos musicais. E, em algumas situações, elas podiam, inclusive, ser dançadas.
Infelizmente, muitas dessas cantigas acabaram desaparecendo, já que eram transmitidas também por via oral. Alguns manuscritos, contudo, foram compilados em obras a que damos o nome de "cancioneiros", quase sempre graças às ordens dos reis. Assim, as cantigas hoje existentes podem ser encontradas em três cancioneiros:
a) Cancioneiro da Ajuda (composto no reinado de Afonso 3º, no final do século 13, tem 310 cantigas, a maioria de amor;
b) Cancioneiro da Biblioteca Nacional (ou Cancioneiro Colocci-Brancuti): contem 1.647 cantigas, de todos os tipos, elaboradas por trovadores dos reinados de Afonso 3º e dom Dinis.
c) Cancioneiro da Vaticana: possui 1.205 cantigas de todos os tipos.
Entre os principais trovadores, devemos citar: João Soares Paiva, Paio Soares de Taveirós, dom Dinis (que deixou cerca de 140 cantigas líricas e satíricas), João Garcia de Guilhade e Martim Codax.
De todas as cantigas existentes, apenas 13 são acompanhadas de notação musical.
Bibliografia
· Iniciação à literatura portuguesa, António José Saraiva, Editora Cia. das Letras, 1999. · A literatura portuguesa, Massaud Moisés, Editora Cultrix, 36ª edição, revista e atualizada, 2008.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Cruz e Souza - O principal poeta simbolista brasileiro
"Missal" destaca-se, para começar, pela forma: são poemas em prosa, um estilo bastante singular para a literatura nacional de até então.
Diz-se que esse estilo foi inspirado no francês Charles Baudelaire.
Como é comum na literatura, a vida e a obra confundem-se na história de um escritor. Foi um homem que experimentou toda a força de sua existência - angustiada e obscura - projetando-a numa escrita reveladora dos dramas sociais da época.
Filho de escravos alforriados, teve vida sacrificada e com dissabores próprios àqueles de sua origem; por um lado, teve criação privilegiada junto aos seus protetores (ex-senhores de sua família), por outro, sua vida adulta é marcada pelo enfrentamento da sociedade circundante. Por isso dizemos que Cruz e Sousa foi um poeta social.
Esse traço está profundamente arraigado a sua obra e muitos são os estudos realizados que atestam o comprometimento do autor com a cultura antiescravagista.
Na obra sousacruziana a exclusão do negro da trama social brasileira está temperada pelo pessimismo, pela sensação de desamparo e fracasso diante da vida e revolta pelo desprezo do qual é alvo.
A trajetória de Cruz e Sousa mostra também conflitos dos seus próprios valores. Sua busca pela "arte perfeita" o conduz tanto ao extravasamento dos dilemas sofridos pelos negros quanto ao embate íntimo, expresso no desejo de pertencer à mesma sociedade que o exclui. Neste sentido, o homem vê-se sem seu lugar no mundo enquanto o poeta o encontra na expressão perfeita da sua arte, sendo que ambos coexistem à sombra dos paradoxos, constituindo um dos elementos da estética da linguagem sousacruziana.
No seu poema em prosa Condenado à Morte ("Evocações", 1898), podemos encontrar evidências destes choques de identidade.
Estética e vida real o assombram e, para atingir a arte idealizada, a dor é o caminho a ser trilhado. Enquanto o contato social caracteriza o cotidiano preenchendo-o com as agitações de um mundo doente, o isolamento aparece como uma sorte de bênção que permite ao poeta o exercício pleno da contemplação e da descoberta da verdade.
"Isolado do Mundo, no exílio da Concentração, solitário, na tristeza majestosa de um belo deus esquecido, as outras forças múltiplas que agem na Terra, na luta desenfreada de cada dia, que equilibram as sociedades, que regem a massa vã dos princípios, que dão ritmo a onda eterna do movimento e entram na vasta elaboração da cultura das raças, sentiram-se hostilizados diante da sua intuitiva percuciência de vidente, de sua ironia gelada de asceta, do seu desdém soberano de apóstolo, da sua Fé indestrutível, serena de missionário, de extraordinário levita sombrio de um culto estranho, que leva aos lábios, em extremo, o Cálix místico da comunhão suprema da Espiritualidade e da Forma."
Contradições também são vistas no poema Da Senzala ("O Livro Derradeiro", publicação póstuma). Abaixo, é possível notar que, para aqueles cuja existência estivesse soterrada pela rudeza e dor, não haveria uma saída possível sem uma passagem pela violência.
O lugar onde se encontra (a senzala) e a brutalidade expressa pelo sofrimento diário e incessante do trabalho forçado são capazes de tirar a razão do homem. Sem razão, sem um sentido pelo qual viver, sem um espaço reconhecido como lar, o que resta a este homem então?
O autor aponta que, destituindo-se o homem de si mesmo, alimenta-se o criminoso. Observemos o poema:
"De dentro da senzala escura e lamacenta
Aonde o infeliz
De lágrimas em fel, de ódio se alimenta
Tornando meretriz
A alma que ele tinha, ovante, imaculada
Alegre e sem rancor,
Porém que foi aos poucos sendo transformada
Aos vivos do estertor...
De dentro da senzala
Aonde o crime é rei, e a dor - crânios abala
Em ímpeto ferino;
Não pode sair, não,
Um homem de trabalho, um senso, uma razão...
e sim um assassino!"
Cruz e Sousa travou uma luta não só para expressar-se sobre a sociedade de seu tempo, mas também para compreender-se enquanto homem e artista. Sua escrita foi, por um lado, tomada como arma para combater aqueles que o renegavam e, por outro, um objeto sagrado usado para reverenciar seu anseio de fazer-se notar por sua força estética e pela sua plenitude humana.
*Lílian Campos é formada em letras e professora de língua francesa na PUC-PR e na UFPR, com atuação também no ensino de língua portuguesa.
Trovadorismo Português
Antes disso, no entanto, Espanha e Portugal formavam um só conjunto de reinos mais ou menos independentes, nos quais os falares, os dialetos conviviam lado a lado, influenciando-se mutuamente. Como afirma António José Saraiva, "o galego-português e o castelhano nasceram [...] como dois dialetos da mesma língua neolatina e foram-se diversificando ao longo do tempo".
Esclarecidas, ainda que superficialmente, essas questões, podemos retornar ao Trovadorismo.
Essa primeira fase da literatura portuguesa é composta por três categorias diferentes de textos:
1) a poesia trovadoresca;
2) as novelas de cavalaria; e
3) crônicas, hagiografias e livros de linhagens.
As crônicas (ou cronicões), algumas delas ainda escritas em latim, guardam certo interesse pelo fato de representarem o início da historiografia portuguesa. Quanto às hagiografias, nascem sob a influência da cultura clerical, através de traduções de vidas de santos e relatos de milagres.
No que se refere aos livros de linhagens, são os mais interessantes, pois não se restringem à enumeração das famílias nobres, mas tratam também de outros temas. Redigidos sob orientação de dom Pedro, Conde de Barcelos, compõem a obra Portugaliae monumenta historica.
Encontramos nesses livros textos curiosos e bem escritos, como uma descrição da Batalha do Salado (travada, entre cristãos e mouros, em 1340, na província de Cádis, no sul da Espanha), bom exemplo da prosa medieval portuguesa, e o esboço de uma história universal que, evidentemente, começa com Adão e Eva e termina nos reis portugueses que reconquistaram a península. Há também a "Lenda da Dama Pé de Cabra", mais tarde recontada por Alexandre Herculano.
A partir do final do século 13 - e durante o 14 - chegam a Portugal traduções do ciclo de narrativas arturianas, descrevendo as façanhas dos cavaleiros de Artur, rei e herói mítico. A influência dessas narrativas é tão grande que, segundo António José Saraiva, "numerosas pessoas em Portugal foram a partir de então batizadas com nomes de heróis daquele ciclo, como Tristão, Iseu, Lançarote e Perceval".
Tais traduções não só influenciaram os usos e costumes sociais, incluindo as festas palacianas, as cerimônias de investidura, etc., como também fizeram surgir, no período literário seguinte (o Humanismo, 1418-1527), o Amadis de Gaula (1528), elogiada novela de cavalaria cujo verdadeiro autor - português ou espanhol - permanece um mistério.
http://educacao.uol.com.br/portugues/trovadorismo-origens-e-prosa.jhtm, em 16/02/2010.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Nascimento do Brasil

Novas rotas mercantis são criadas a fim de suprir as demandas do mercado consumidor, que só aumentava
A Península Ibérica, formada por Portugal e Espanha, estava em posição de poder: acabara de reconquistar seus territórios ocupados, até então, por muçulmanos, e estava em posição geográfica favorável para a navegação, o que favoreceu a conquista de novas terras.
As rotas comerciais para o Oriente favoreciam a descoberta e colonização de novas terras por parte de Portugal.
Após a bem sucedida expedição de Vasco da Gama às Índias, o rei de Portugal, D. Manuel I, resolve enviar uma esquadra às Índias, liderada por Pedro Álvares Cabral, com a intenção de estreitar vínculos comerciais. Contudo, a esquadra que inicialmente iria em direção à costa africana, se pendeu para o continente americano. Alguns estudos comprovam que o rei D. Manuel I já sabia da existência do Brasil, já que desde 1351 o território brasileiro era representado em mapas como uma ilha em meio ao Atlântico. Porém, não há confirmação exata a respeito desse assunto.
No dia 22 de abril a esquadra portuguesa avista um monte, o Monte Pascoal, intitulado assim por ser Páscoa.
O escrivão da esquadra, Pero Vaz de Caminha, registra a primeira missa na nova terra, chamada de Vera Cruz, feita pelo Frei Henrique de Coimbra, o qual pregou que o território descoberto deveria ser convertido ao cristianismo, em nome do rei. A terra, então, passou a se chamar Terra de Santa Cruz e, posteriormente, Brasil, devido à quantidade de pau-brasil no litoral.
As expedições marítimas tinham a proteção da Ordem de Cristo, sob chefia do papa. Os portugueses estavam em guerra religiosa com os árabes e as expedições tinham a intenção de propagar a fé cristã e disseminar os infiéis.
A Ordem de Cristo era, portanto, uma companhia religiosa e militar comandada pelas orientações do papa, o único com autorização para ocupar territórios como o Brasil, repleto de “infiéis”. Podemos considerar como o início da literatura a carta de Pero Vaz de Caminha, os diários de navegação, os tratados firmados, além dos escritos pedagógicos e informativos da evangelização jesuíta. O mais enfático jesuíta é Padre José de Anchieta, que veio ao Brasil com a proposta de catequizar os índios, por volta de 1553. Dedicou-se à catequese e é conhecido por suas poesias de devoção, cartas e estudos da língua tupi (autor da primeira gramática tupi-guarani).
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Cartas Chilenas
Critilo é um habitante de Santiago do Chile (na verdade Vila Rica), narra os desmandos despóticos e narcisistas do governador chileno Fanfarrão Minésio (na realidade, Luís da Cunha Menezes, governador de Minas até a Inconfidência Mineira).
Por muito tempo discutiu-se a autoria das Cartas Chilenas. A dúvida só acabou após estudos de Afonso Arinos e, principalmente, de Rodrigues Lapa, comparando a obra com cada um dos elementos do "Grupo Mineiro", possíveis autores, quando se concluiu que o verdadeiro autor é Tomás Antônio Gonzaga e que Critilo é ele mesmo e Doroteu, Cláudio Manuel da Costa. Especula-se que a obra tenha sido influenciada por Cartas Persas, de Montesquieu.
Obtido em http://pt.wikipedia.org/wiki/Cartas_Chilenas. Em 18/11/2009.
O autor se dá o nome de Critilo e chama o destinatário de Doroteu. Finalmente, os fatos aludidos são facilmente identificados pelos leitores contemporâneos.
A matéria é toda referente à tirania e ao abuso de poder do Governador Fanfarrão Minésio, versando a sua falta de decoro, venalidade, prepotência e, sobretudo, desrespeito à lei. Afirmam alguns que o poema circulava largamente em Vila Rica em cópias manuscritas.
Critilo (Tomás Antônio Gonzaga) aplica-se de tal modo na sátira, que a beleza mal o preocupa. Os versos brancos concentram-se no ataque. Sente-se um poeta capaz de escrever no tom familiar que caracteriza o realismo dos neoclássicos, com certa inclinação para a pintura da vida doméstica.
Para Critilo, o arbitrário Governador constituía, de certo modo, atentado ao equilíbrio natural da sociedade.
Entretanto, não se nota nas Cartas nenhuma rebeldia contra os alicerces do sistema colonial, nem mesmo uma revolta contra o colonizador; apenas se critica a má administração do governador Cunha Menezes. Seu significado político, todavia, permanece. Literariamente, é a obra satírica mais importante do século XVIII brasileiro e continua sendo o índice de uma época.
Obtido em: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/c/cartas_chilenas. Em 18/11/2009.
domingo, 8 de novembro de 2009
CLASSICISMO GRECO-LATINO

Valorização da Vida e do Mundo (do século V a.C. ao V d.C.)
Características literárias
1. Valorização da vida e do mundo e não do além;
2. Racionalismo e não sentimentalismo;
3. Deus mora ali no Olimpo, e não no Infinito;
4. Belo é o corpo, não necessariamente a alma;
5. A pintura e escultura têm apreço pelo nu; a figura humana não deve ser ocultada;
6. O homem é um ser que constrói seu futuro; não nasceu congenitamente depravado;
7. Desejam-se glória e fama na terra, não nos céus;
8. Os deuses pagãos são usados como figuras literárias e alegorias, nunca subjugando os espíritos e paixões;
9. O homem arca com suas decisões; não existe pecado;
10. A poesia, anterior à prosa, é quase uma segunda religião no mundo clássico;
11. Dos gêneros literários em poesia, destaca-se, no classicismo greco-latino, a epopéia.
Autores e Obras
Poetas antigos cuja importância se mantém até os dias de hoje: o grego Homero e o latino Vergílio.
Homero :
Ø Fundador da poesia épica, não se sabe ao certo onde e quando nasceu. Era um mendigo cego que declamava seus versos ao toque de sua lira.
Ø Obras : a Ilíada e a Odisséia.
Vergílio:
Ø Espírito delicado e harmonioso, imitador admiravelmente hábil dos antigos, em particular de Homero, é contudo um gênio dos mais individuais, pelo seu amor à natureza e pela absoluta perfeição de seu estilo.
Ø Obras: Eneida, Geórgidas e Bucólicas.
A Eneida é uma mistura de história e lenda. Lendárias são as aventuras de Enéias; histórica é a descrição de Roma, de suas origens até o século de Augusto.
João Guimaraes Rosa
Sagarana (contos, 1946); Corpo de baile (Manuelzão e Miguilim; No Urubuquaquá, do Pinhém; Noites do sertão; novelas, 1956); Grande sertão: veredas (romance, 1956); Primeiras estórias (contos, 1962); Tutaméia (contos, 1967); Estas estórias (contos, 1969).
Caraterísticas básicas:
- A primeira grande inovação do autor é da linguagem, cheia de arcaísmos, neologismos, onomatopéias, inversões, novas construções sintáticas, etc., e que poderia ser resumida assim:
Linguajar sertanejo + Recriação estilística = Linguagem revolucionária
Observe o início de Grande sertão: veredas:
Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem, não, Deus, esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço; gosto, desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser-se viu e com máscara de cachorro.
- O mundo retratado em suas ficções é o do sertão mineiro, um mundo imobilizado no tempo, sem vínculos com o litoral modernizado do país e cuja principal traço é a consciência mítica dos protagonistas. Esta consciência mágica explica o mundo pelo sagrado e pelo fantástico. Assim, os fenômenos naturais indicam sinais de potências misteriosas e inexplicáveis. À medida que a modernidade urbana /capitalista avança, o mítico tende a ser dissolvido.
- A presença do demônio em Grande sertão: veredas faz com que a narrativa se insira na categoria do realismo mágico.
- Alguns contos de Guimarães Rosa são célebres. Entre eles, figuram: A hora e a vez de Augusto Matraga e O burrinho pedrês, de Sagarana; e A terceira margem do rio, de Primeiras estórias.
Grande sertão: veredas
- A temática da "jagunçagem" e a prosa inovadora atingiriam o seu apogeu neste romanace, que se estrutura no jogo dialético do presente e do passado. Assim:
Plano presente:
O ex-jagunço e, hoje fazendeiro, Riobaldo narra a história de sua vida para um "doutor" da cidade. O "doutor" nada declara durante o discurso de Riobaldo, que assim se converte em monólogo. Ao lado das reminiscências, Riobaldo formula uma série de interrogações sobre o sentido da existência, a luta do Bem x Mal, a presença real ou fictícia do demônio, etc.
Plano passado:
Focaliza as experiências de Riobaldo como jagunço, quando realiza sua longa travessia pelo sertão mineiro. Uma travessia exterior por um sertão objetivo, geográfica e historicamente falando. Numa espécie de "banalidade do mal", os bandos armados se exterminam a serviço dos grandes latifundiários. Mas como o "sertão está em toda a parte, o sertão está dentro da gente", essa travessia torna-se interior, levando Riobaldo ao autoconhecimento. A percepção de si mesmo surge do contato com outros homens, em especial da dupla polarizada Diadorim-Hermógenes. O primeiro, mulher camuflada de homem, deflagrará no narrador o processo amoroso. O segundo – força demoníaca - representará o ódio, o sangue e a perfídia.
A obra de João Guimarães Rosa – embora centrada no mundo sertanejo mineiro – ultrapassa pela linguagem revolucionária e pela indagação a respeito da questões fundamentais do homem (amor, sentido da vida e da morte, mito e razão, etc.) os parâmetros do regionalismo, permanecendo como uma obra de valor universal.
http://educaterra.terra.com.br/literatura/em maio 2006.